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SOMENTE PALAVRAS... - 23Set2018 03:28:14
que de dedos se traduzem as palavras,
se de cheiros novos tamanhos
se de memórias irrompendo a vida
soprando o tempo na imitação de sons,
se mais alfabeto e se menos vento.

demora a morder o impossível
que de coisa nova ignora,
a anterior pendurada mas não arrumada
que será contudo diferente.

do leviano endereço que digo e omito
no apetite insondável e indiferente
que caminhou como invento
e como rebento de unguento.

prosseguirei desta cadeira
sem perigo ou sem abrigo
mas sempre no mesmo postigo
que me irrigue e dure, até que a viste perdure!

Eduarda
11/05/2010

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=132262

AMAR É... - 23Set2018 03:28:14
amar é...
um tempo que não fala
uma glória quente colada de lilases,
um sumo de versos que nos aquece
na idade da noite
em passo de valsa no rosto moldado do vento.

amar é?
aquele sentir involuntário
da maré que ousa afogar devagar,
a tempestade dos pensamentos,
tornando as águas uma linguagem universal.

amar é ?
aquela coisa contrária a uma outra,
filha da noite e da chama prometida
na chuva turva que ébria,
nos entorna o fogo
do tudo e nada
de estar preso e voar
definido sem ser tocado.

amar é?
aquele sopro que ganha luz
a viagem inconsciente
que nos invade a acreditar
a ceia esfomeada depois da maré-cheia.

amar é ?
ser frágil e aço,
de ser grito e cor
aquém da alma e do céu
e estar acordado no silêncio do sono.

Eduarda
09/05/2010


Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=131970

NOS TEUS GESTOS SOU... - 23Set2018 03:28:14
há um vento luminoso que se solta de noite.
tem a cor dos teus olhos e o sabor da tua voz.
avança em tom de alabastro,
num gesto suave das tuas mãos.

empurra-me levemente para o brilho do teu olhar,
doces pontos que página iluminada e semeada de novos murmúrios se ouvem.
acordarei na manhã das aves,
sobre o teu sono leve e apanharei da tua sombra
o rasto dos segredos, como se o teu corpo fosse
um enigma de símbolos, roçando-me num abraço.

e ficarei contigo como folha corrente de rio,
que o acaso me indicou como princípio desfolhado
no fundo dos sentidos.
serei na tua pele o despontar da madrugada,
o sulco macio que sei e que leio no fio do poema.

Eduarda
08/05/2010

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=131852

APENAS UM SOPRO... - 23Set2018 03:28:14
ofereceste-me palavras para entrarem
lentamente no meu corpo e pensar que abraçava
uma nova noite no sangue da esperança.
mergulhei inteira na vela da fogueira
à espera do sopro da asa.
afinal tinha sido apenas um golpe de gelo,
um sonho indigente e embriagado na névoa fatal.
abri o ventre como castigo da ferida que me deixaste aberta
e vazei os olhos, para cortar as palavras que disse,
condenadas de um crime que não cometi.
desenho agora nas roupas desbotadas, mãos e língua, coalhadas de sangue e cubro o rosto com as cinzas das velas feridas e enterradas nos buracos do meu corpo.
e para não ter mais sonhos, cortei as asas da noite inteira
e atirei-as ao poço do falso adulador, que passou por mim,
com as mãos arrumadas e apagadas de águas.
e eu fico aqui a coleccionar mergulhos no alto dos poemas,
na companhia do vinho e do cigarro,
enquanto o mar me esmaga as dores do corpo
e das palavras na brecha da consciência.

Eduarda
07/05/2010

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=131686

AMOR QUE SEI E CANTO! - 23Set2018 03:28:14
e deste amor que sei e canto,
com o teu olhar apontado à minha boca,
leve lanterna que inventámos de coragem tanta,
que fazemos no passo que nem eu sei do pensamento.
tenho nas veias e nas costelas este amor feito de dois, na página certa e no lápis exacto que resiste.
o teu olhar escreve estreito a distância,
entre a ideia e a palavra,
entre o sopro do vidro e o vestido da lua,
onde o sol se vira de bruços.
dentro do perfil da luz e do espaço nu do fogo,
cerramos mudos as tardes dilatadas...
mordemos o frio dissolvido no ar...
pisamos as cores arrumadas...
e construímos este fogo denso
que passa e repassa no abraço.
passamos pela espuma branca
com os pés fincados
na areia dos astros,
avançamos de cor pela sombra dos corpos
e dos olhos escrevemos versos como quem morre.

Eduarda
04/05/2010

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=131276

QUANTO DE TI... - 23Set2018 03:28:14
quando do meu sono digo quando de ti acordo,
como gávea acalentada de espumas e sóis,
e te transformas em trevo de sol
quanto me meditas em arco de sopro,
e me roças os lábios em íris de sonhos.
renasces em cada manhã como murmúrio de mar,
abrindo os braços em descobertas,
num leme secreto sem descanso de convés.
sai do teu peito um rumor de viagem
que derramas em mim qual onda incendiada.
ensinas-me as rotas na proa da pele, espalhando os pés do porão incompleto e inscrevendo no diário os ilimites dos céus. emerges como capitão de luz, recôndita obra que sopra das vagas sem oposição de cadência.
no banco do mundo, somos o som das bocas
da maré-cheia e a vela confessa na seara de espuma.

Eduarda
29/04/2010

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=130568

RETICÊNCIAS... - 23Set2018 03:28:14
que parte da espuma branca
acreditei no lamentoso canto da gaivota
se sorriso em face de dor
se salgado verso de turvo silêncio?

que beijos alterosos as vagas
me trouxeram os risos das marés
como se a onda fosse um escadeado azul
e o grito uma negação calada?

que de distante poente se soltou a promessa
se em vão escuro de escarpa
se vergada alma açoita e tímida
que se quedou muda no tumulto da areia?

ai este corcel copioso e desvanecido
que se dissolveu nas partículas da insolação
e se tornou vento incerto no lado do silêncio!

Eduarda
28/04/2010

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=130417

Realidade - 23Set2018 03:28:14
tudo parece real nas noites oblíquas das turfas
nos risos das casas e nos papéis das sombras.
as pedras esguias tornam-se dentes de estátuas
e a seiva percorre o dorso da corça
na escuridão dos corpos decepados.
há gritos de amor e de lamentos
parecendo riscas secretas
nos rostos velozes que se tocam.
depois há sempre a espera,
a que se distrai e a que se lança em ameaça
no minuto do sereno
ou no olhar agendado que se move no chão.
e os nomes que se entornam nos pés
que não mordem mas golpeiam.
realidade, são as palavras ditas e as não sentidas,
a cor dos lábios sem alento
que respiram e sofrem
num tremor subsistente.
realidade é a febre das palavras
e o futuro lento dos ventres
no suor dos corpos em movimento.

Eduarda
27/04/2010




Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=130263

VENTO SOPRADO - 23Set2018 03:28:14

no vento soprado
sou voo de condor
escondido, lançado
no grito de dor
no rosto sombrio
de galhos rasgados
cortam-se peles
no urro dos ventos
silêncio largado
no esboço do sal
com ventres enlutados
e ilhas de barro
estátua prenhe
de gravura talhada
peito sem vida
no ramo esgotado
adeus sifilítico
com ar em suspenso
fragmentos de boca
em sangue suposto
na medida dum tempo
sem tempo a supor.

Eduarda
25/04/2010

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=129989

PENEIRA DE SONHOS - 23Set2018 03:28:14
a peneira dos sonhos
absorve-me as contínuas bátegas
quando me tocam, assim parto
feita nuvem esventrada.

no declínio do abandono
fico além do poço fundo
que caminho sem retorno.

só passos e só pedras
na paisagem
que seda ou peçonha
são os medos da viagem.

reencontro o membro do dia
que toca as esquinas
ao roçar os ombros
no lago do outono.

reconhecem-me as bátegas
que só param findo o sono.

Eduarda
20/04/2010

Fonte: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=129221